domingo, 28 de junho de 2015

Haicai

Vamo indo. 
Prá onde? 
Não sei.

sábado, 14 de abril de 2012

Uma trilogia psiqui�trica


Como se chama o cara que alterna desespero, e n�o mania, com depress�o? - diria o estudante de psiquiatria, tentando se encontrar.

* * *

Falava tanto na consulta que a terapia fazia bem para ele tamb�m.

* * *

- E o que voc� fez, afinal, com o cara?

- Conversei com ele uma semana, e liberei. Devolvi para a rua.

- Liberou?

- �! Vai que o cara � "O Homem", mesmo?!



terça-feira, 6 de março de 2012

A Guerra dos Tronos OU O Animal Ancestral

A Guerra dos Corvos ou

O Animal Ancestral

O ser humano, j� foi demonstrado cientificamente, tende a reconhecer o (j�) conhecido - se voc� me desculpa o duplo pleonasmo; enxerga no semelhante a si a beleza, da mesma forma com que pressente o medo no que lhe eh simplesmente estranho ou diferente.

A teoria das faces protot�picas, longe de armar o preconceito, o explica: nosso c�rebro armazena informa��es relativas � tridimensionalidade dos rostos como o faz quando associa a forma e a fun��o de objetos, estabelecendo conex�es muito mais abrangentes do que pensamos. A maioria das pessoas tende a apreciar semblantes de pessoas cujas caracter�sticas se aproximam da media em termos de volume e propor��o: narizes nem chatos nem largos ou aduncos demais; queixos vis�veis, mas n�o protuberantes; orelhas de elfo, se estes existissem, fariam par as de abano; l�bios se poss�vel desenhados, nem finos como os do Batman, nem grossos como os de la Jolie.

(obviamente nem sempre assim)

Somos bastante conservadores quanto a nossas prefer�ncias est�ticas. Sabe por que os pentes de antigamente tinham aquela esp�cie de ranhura imediatamente acima dos dentes? Lembra? Estavam quase sempre l�, fosse o pente de osso, de madeira entalhada ou marfim, mesmo em alguns j� feitos de pl�stico, bem recentes... Fun��o? Nenhuma - a n�o ser nos fazer lembrar um tempo em que pentes eram feitos de verdadeiros dentes ou garras de animais, amarrados com pedrinhas, manufaturados com a paci�ncia infinita da necessidade.

Est�tica, a ci�ncia, esta cheia desses exemplos nos quais a forma sobrevive a fun��o, subvertendo o esperado, sugerindo a verdadeira extens�o do poder das imagens em nosso subconsciente. Se voc� acha que n�o, que tudo isso eh for�a��o de barra de filosofo maluco, preste aten��o em nossos ve�culos mais modernos: para que servem, ainda mais estilizados, os p�ra-lamas que insistem em reaparecer?

A ind�stria e sua filha, a propaganda, sabem de tudo isto h� tempos: decalcam em nossa mem�ria eventos afetivos que consolidam marcas, produtos, servi�os. Os pol�ticos tamb�m o fazem, pelo menos quando sabem representar (bem) seu papel. Na Pintura deram at� nome: Impressionismo, porque n�o eh exatamente a forma que "fica", eh a impress�o, a mem�ria da forma, origem de todas as madeleines.

Lembro que h� duas ou tr�s d�cadas o frisson era pelos ferorm�nios, ou feromonas, orgi�sticos agentes da simpatia e da libido a desencadear antipatias gratuitas e paix�es fulminantes. Somos escravos do cheiro, diria a d�cada d'O Perfume, livro que alcan�ou a gl�ria antes de ser entendido como a s�tira que eh.

Hoje a onda eh abra�ar "nosso lado sombrio", como quer o Chopra e sua turma em mais uma tentativa de provar que olhar para um el�tron o transforma - o que deve ser verdade, pelo menos do ponto de vista comercial, vez que desde a Teoria da Relatividade uma hip�tese cientifica n�o era al�ada a condi��o de verdade universal Yao rapidamente como o tal Princ�pio da Incerteza (ou n�o merece as mai�sculas?)

Ou negar sua exist�ncia, coisa que fazem os adeptos do tal Segredo, que se pro�bem ate pensamentos obscuros, numa lavagem cerebral auto-infligida; espiritualistas variados que partem do principio que "na natureza" n�o h� bem ou mal; ate crist�os possuidores da �nica verdade que pregam que Cristo n�o apresentava dejetos fisiol�gicos, ou at� mesmo comi ou dormia, sem perceber que negam a Humanidade que o define.

Por isto e mais um tanto sou cada vez mais f� do George R. R. Martin e suas Cr�nicas de Gelo e Fogo, onde a natureza selvagem do ser humano eh dissecada em sua ess�ncia, ao descrever um momento hist�rico (fantasioso, por que n�o?) em que as normas de conduta social ainda estavam se consolidando. Na obra de Martin, o confronto com o animal interior faz surgir das personagens, o melhor (ou n�o), e os faz por isto plenamente reconhec�veis, apesar de selvagens, nossos irm�os. Profundamente humanos em sua �nsia por compreender o mundo que os cerca, perigoso, indecifr�vel e vasto, complexo, estarrecedor... em tempos piores quae os nossos..

Quando nos enredamos em seu mar de narrativas e subitamente nao nos importamos mais com a esquisitice de um universo povoado por lobos gigantes, homens das cavernas ou filhotes de drag�o pode ser que o que reconhece os n�o seja sob a humanidade de tribos e cren�as ancestrais, fundamentadas em outros paradigmas, mas a pr�pria estranheza de nossa gente e nosso mundo.

Reconhecer mais facilmente o que apreciamos pode ser um aspecto essencial da natureza humana, mas n�o significa que n�o conseguimos enxergar o diferente. De maneira an�loga a crian�a rejeita alimentos muito coloridos , �cidos ou pungentes: faz parte de seus mecanismos de defesa contra intoxica��es e venenos.

Com o tempo e a maturidade, podemos chegar a desejar estas experi�ncias, por darem tempero a vida. Do que seriamos capazes se finalmente entend�ssemos mais sobre a nossa pr�pria natureza? Despidos de nossos vieses culturais, talvez ate dos filogen�ticos, seriamos melhores ou piores? Bons? Ou maus?

sábado, 4 de junho de 2011

Arycl� de Castro Muniz (1928-2011)

A CADEIRA NO PENHASCO est� de luto pelo falecimento de sua grande inspiradora, minha querida av� paterna Arycl�, cujo falecimento consternou a todos - seu esposo, filhos, netos, bisnetos e amigos - na noite do dia 2 de junho.

Keka, como era conhecida por todos, foi exaustivamente pranteada por todos aqueles, queridos, que visitaram a capela 3 do Cemit�rio Municipal de Curitiba, ontem. O dia frio, mas com muito sol, foi digno de uma despedida memor�vel a uma mulher singular.

Professora, Keka fez hist�ria com sua irm� Glacy, lecionando no antigo Grupo Escolar Becker e Silva, antigo educand�rio do bairro da Ronda, em Ponta Grossa. L� ocupou-se de v�rias gera��es, tornando-se inesquec�vel por sua capacidade, humanidade e dedica��o.

Formada pedagoga j� na meia-idade, pela UEPG, Dona Keka ainda teve for�a e disposi��o para cursar uma p�s-gradua��o em Educa��o Especial para Deficientes, especialmente os privados da vis�o. Ela pr�pria s� contava com a vis�o de um olho, o que n�o a impediu de, ao longo dos anos, passar para o Braille verdadeira biblioteca, feita � m�o com grande sacrif�cio pessoal, em um tempo em que este era um trabalho artesanal, quase sobre-humano.

Violonista de voz doce e forte; intelectual de m�ltiplos recursos e interesses; internauta de primeira hora (e apaixonada); m�e, av� e bisav� extremada, Keka era uma mulher absolutamente moderna.

Sua vontade de viver e de estar com os seus (e eram muitos os que a amavam) sempre possibilitou reviravoltas inesperadas em seus problemas de sa�de, o que torna sua partida, malgrado o peso da idade e de anos de sofrimento cl�nico, intensa, triste e inesperada. Ela nos acostumou mal, dizia ontem em seu vel�rio, fez-nos acreditar que era imortal.

E �, creio eu, pois vive em cada um dos que a conheceram e amaram. Permanece como um exemplo de vida proba, �til � sociedade e aos seus, intelectualmente vibrante e produtiva. Sua amor a tudo que � vivo, sua capacidade de entender e adaptar-se �s mudan�as hist�ricas, e sua profunda humanidade, ajudam-nos a prosseguir, por mais que a perda, e a saudade, sejam desde j� eternas.


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Agrade�o de cora��o, em meu nome e de minha fam�lia, a calorosa maneira com que todos os que estiveram conosco na data de ontem nos acolheram e consolaram


E agrade�o especialmente ao Sr. Francisco Muniz, meu querido av�, por todo seu carinho e dedica��o � Keka e � nossa fam�lia. Na data de seu anivers�rio, tenho certeza de que, esteja onde estiver, minha av� festeja, junto com Seo Chiquinho e todos os que est�o l�, agora, no s�tio em Campina Grande do Sul, seu 83� anivers�rio.


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FOTO: Dona Keka em sua �ltima visita a Ponta Grossa, com o bisneto Thomas. Ch�cara Igup�, fevereiro de 2011.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Rio de Janeiro,

minha alma chora, e a de todos n�s brasileiros, ao imaginar o medo e a ang�stia - incomensur�veis - a corroer o cora��o dos cariocas nesses dias.

Ao corroer o cora��o de todos n�s cariocas - porque sim, se somos brasileiros, somos tamb�m, para sempre, cariocas. S� entendemos o Brasil quando come�amos, ou terminamos, no Rio, sua mais perfeita tradu��o e s�ntese.

Por isso hoje choro, de corpo e alma. Vejo ve�culos incendiados em lugares por onde vivi, onde passava todo dia, ou toda semana, quando morava l�: a duas quadras de onde morei em Laranjeiras, no buraco entre os t�neis dos irm�os Rebou�as, na Cidade (que carioca n�o fala Centro), pior ainda na Penha, onde trabalhei tantos anos, no Get�lio Vargas e no M�rio Kr�eff.

(N�o preciso imaginar o desespero dos colegas m�dicos: vez por outra eu ou minha esposa fic�vamos retidos at� o dia seguinte nos hospitais).

Imediatamente pensei em quem estaria de plant�o por l�, amigos meus. Pensei nos meninos do morro que cuidavam dos carros, na ladeira do Getuli�o, na m�e que se desesperou ao ver o filho baleado, mas est�vel, aguardando cirurgia. Lembrei do tamb�m amigo Dom Rafael, ali na Igreja da Penha; seria que estar� l�, em sua resid�ncia, retido tamb�m o bom Bispo? E meus filhos, na Zona Sul?

Que a proximidade do alto o ilumine, e a tantos outros, para que possam pedir aos C�us por todos n�s, os que l� estamos e os que aqui de foram, assistem, apavorados, ao "oriente m�dio" brasileiro.

"Imagens que eu guardo na mem�ria", diria a poeta.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Porn Food e o Futuro da Televis�o (espelho)

A Porn Food e o Futuro da Televis�oOct 5, '10 8:33 PM
para todos
Acompanho j� h� alguns anos, at� pela onipresen�a, v�rios programas de culin�ria na tev�. L� se v�o muitos anos desde que a cachorrada da Ana Maria Braga era o prato mais comentado do dia.

Na tev� aberta nem sei mais, impregnado que estou pela cable television, descobrindo estarrecido que muitas, muitas vezes, o melhor da programa��o est� justamente nos programas de gastronomia.

Dos seminais, prof�cuos e plurais Jamie Oliver ("o cara da comida nas escolas brit�nicas", tamb�m conhecido como "o cara das ervinhas no quintal") e Gordon Ramsay (o dono da "Cozinha do Inferno", consertador de pesadelos e falador de palavr�o) passamos a degustar (ou n�o! o que por si j� � uma convers�o) os aloprados Andrew Zimmern e Anthony Bourdain, estrelas maiores da atual mir�ade de shows de culin�ria e escatologia que serve � tela pequena.

O primeiro se fez conhecido no mundo todo pelo seu imperd�vel "Bizarre Foods" (no Brasil, "Comidas Ex�ticas", DTL), cole��o para l� de interessante sobre h�bitos, culturas... e alimentos. Americano, judeu e chef de cozinha, Mr. Zimmern n�o desdenha, sempre quer comprar, fazendo valer seus bord�es: "se tiver boa apar�ncia, coma" e "nunca desista no primeiro peda�o" - inclusos insetos de toda sorte, cr�nios (de porco, carneiro e bode), tar�ntulas, r�pteis, roedores, morcegos e ratos. � o fim do mundo, e � legal, especialmente pelo respeito que o apresentador devota a tudo que � comest�vel - Mr. Zimmern comunga com Mr. Bourdain a cren�a de que se algo � bom o suficiente para outro ser humano comer, pode se experimentar.

"Tony Bourdain No Reservations" � o nome do show de seu amigo e ex-vizinho em Nova Iorque, cuja genialidade no comando das panelas p�e Andrew no chinelo. Feliz ou infelizmente, Tony � dono de trajet�ria mais err�tica e inconstante, variando do jet set � sarjeta e �s drogas, o que lhe garante mais profundidade na fala, que inclui pol�tica, antropologia e cultura em doses verborreicas - garantindo, de quebra, um escopo de vis�o provilegiado ao programa.

Nas temporadas que passam no Brasil, sempre com grande atraso, Tony viaja o mundo a bordo de muito senso cr�tico e capacidade de observa��o. N�o viaja simplesmente em busca de comida, como o compatriota, mas de forte e raras emo��es. S� falta chorar de alegria e tes�o em frente a uma bela sopa vietnamita; lambuza-se de sangue fresco de foca na cozinha de uma fam�lia inu�te no Canad�; titubeia frente a um complexo per�neo de porco, com conte�do e tudo, assado na brasa em uma savana africana. Experimenta a comida das ruas como quem vai � igreja, ciente do milagre da multiplica��o das rotinas e insumos por este mundo que pode ser qualquer coisa, menos desinteressante.

E de quebra presta o mesmo servi�o que tantos de seus comparsas: o resgate de tradi��es possivelmente morredouras, rep�rter ocular de hist�rias que j� podem ter acabado quando o programa vai ao ar. Uma delas, recheada de for�a po�tica que ultrapassa as barreiras da arte de se fazer televis�o, � a do fazedor de noodles em algum lugar da China, montado em seu imenso rolo de madeira, o �ltimo de sua profiss�o.

Recentemente o DTL reprisou a vers�o de Bourdain para o "Para�so/Heaven", em epis�dio especial que passeia por alguns dos melhores momentos de sua trajet�ria, que atinge seu ponto alto enaltecendo a intimidade de nossas bocas com a comida feita � m�o, pela m�o de outras pessoas, simbiose que toma dimens�o verdadeiramente metaf�sica em seu discurso apaixonado (por comida) em uma esquina qualquer de NY.

Antes, por�m, ao declinar exageros e absurdos veiculados em programas exatamente como o dele, Tony cria curioso neologismo ao se referir aos excessos alimentares de nossa obesa televis�o, que chama de "porn food", em clara alus�o a nosso modos onanistas e voyeuristas diante da imagem (virtual, claro) de um prato de comida.

�, Tony, voc� tem raz�o. Somos todos uns selvagens, como pode atestar outra figurinha em ascens�o no meio, o impag�vel Adam Richman (Man Vs. Food, FoxLife), cujo est�mago acomoda facilmente os muitos quilogramas dos desafios quantitativos t�o comuns nos EUA, numa maratona que d� fome e n�useas a um s� tempo.

De minha parte, aguardo ansiosamente pelas del�cias da gastronomia virtual, a ser desenvolvida nas pr�ximas d�cadas pela uni�o de talentos de tecn�logos da computa��o ecaras como esses citados aqui, que partem da simples comidinha nossa de cada dia para alus�es complexas que ajudam a entender o que fomos, como chegamos at� aqui, o que continuaremos comendo nas d�cadas vindouras e o que nunca mais comeremos: lembran�as de del�cias caseiras soterradas pela generaliza��o da "junkie food" e pela escassez de �gua e alimentos que, fatalmente, vir�.

E que tantas horas em frente � tev� me poupem uns anos de terapia. Sa�de!

(Foto: Outback, Rio de Janeiro, 2010)